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Ferreira Gullar – Narciso e Narciso

Se Narciso se encontra com Narciso
e um deles finge
que ao outro admira
(para sentir-se admirado),
o outro
pela mesma razão finge também
e ambos acreditam na mentira.

Para Narciso
o olhar do outro, a voz
do outro, o corpo
é sempre o espelho
em que ele a própria imagem mira.
E se o outro é
como ele
outro Narciso,
é espelho contra espelho:
o olhar que mira
reflete o que o admira
num jogo multiplicado em que a mentira
de Narciso a Narciso
inventa o paraíso.
E se amam mentindo
no fingimento que é necessidade
e assim
mais verdadeiro que a verdade.

Mas exige, o amor fingido,
ser sincero
o amor que como ele
é fingimento.
E fingem mais
os dois
com o mesmo esmero
com mais e mais cuidado
- e a mentira se torna desespero.
Assim amam-se agora
se odiando.

O espelho
embaciado,
já Narciso em Narciso não se mira:
se torturam
se ferem
não se largam
que o inferno de Narciso
é ver que o admiravam de mentira.

                                                       

* Do livro: Barulhos.

OVNI

Sou uma coisa entre coisas
O espelho me reflete
Eu (meus
olhos)
reflito o espelho

Se me afasto um passo
o espelho me esquece:
— reflete a parede
a janela aberta.

Eu guardo o espelho
o espelho não me guarda
(eu guardo o espelho
a janela a parede
rosa
eu guardo a mim mesmo
refletido nele):
sou possivelmente
uma coisa onde o tempo
deu defeito

Eu Narciso

“[Narciso] deitou-se tentando matar a sede,
outra mais forte achou. Enquanto bebia,
viu-se na água e ficou embevecido com a própria imagem. (Ovídio, “Metamorfoses”)
Como aprender a me ver
sem me perder?
O reflexo não me explica,
apenas me consome
e me prende.Uno-me tanto a mim
que meus átomos se juntam
ao meu reflexo.

Como Narciso,
eu sou aquele
no reverso, no inverso,
no espectro que me  devora.Quando me perco,
é quando me encontro.

Solange Firmino
[9º lugar no concurso Brasil dos Reis 2011]

    Trago dentro do meu coração,
    Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
    Todos os lugares onde estive,
    Todos os portos a que cheguei,
    Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
    Ou de tombadilhos, sonhando,
    E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

    (…)

    Clique aqui para ler o poema inteiro.

     

    Filho…, igualzinho à minha poesia
    você nunca foi meu órgão
    A arte é constante e me habita à hora que ela quer
    e à hora que eu deixo
    Mas não me existe combinada, não há contratos nem despejos
    você tem intimidade com meus interiores
    com meus departamentos
    Você é um argumento contra mim e a meu favor
    Me trai porque conhece meu avesso
    Me enobrece porque me tornou poderosa
    Capaz de prosseguir com essa invenção chamada humanidade
    Você é a barbaridade de ter feito a minha barriga crescer
    Meu corpo zunir, abrir, escancarar pra você sair
    de onde eu nunca pus sequer os pés, as mãos
    da casa em que vivo e habito sem nunca ter entrado
    porque moro fora de mim.
    O que faz de seu édipo eficiência
    e de seu abuso, cultura
    é essa estrutura feita de mim
    sem que eu tenha em ti o mesmo acesso
    Por isso a criatura é mais que o criador
    e você que saiu por onde entrou

    Como ocorre com o poema
    tem seu passaporte carimbado para todos os estados
    de minha alma, de meu espírito
    Você que é onírico, sábio vassalo
    Me tiraniza e perde a fala, o fôlego, o faro
    Me organiza e ganha o futuro
    e ainda segura o jogo duro de viver independente de minha respiração
    Espião de meus bastidores
    Olhou minhas entranhas enquanto virava ser humano
    quieto dentro de mim como as palavras antes de serem poesia
    Mas fui apenas uma pensão, uma besteira
    ou um hotel cinco estrelas
    ou um amniótico colchão.
    Hoje saído dessa embalagem, me olhas como miragem
    de parecer tão próprio, tão seu
    Me olhas como árvore
    ziguezagueia e olha para o que fui: passageira semente.
    Me olha como gente que já me viu por dentro
    vasculhou meu plasma, minhas gavetas
    me deixou pasma, coroou minha buceta
    e sabe meu segredo
    Me olha elegante e vestido
    e se sente despido ao saber que o olho de minha coxia
    também te viu virar varão.
    Deixar de ser óvulo, indefinição, projeto, embrião
    e haverá sempre um leite materno
    escorrendo pelo seu terno
    como mirra, bênção, distração
    como birra, alimento, maldição
    maior que mim, melhor que mim.
    Está pronto e feito, como o meu melhor poema
    Nem branco nem preto.
    Nem real nem ilusão.
    Um grande amuleto da palavra são.

    (Da série “Consagração da criatura”)

    Visite Elisa Lucinda:

    http://www.escolalucinda.com.br/bau.htm

    Habitar o tempo

    Para não matar seu tempo, imaginou:
    vivê-lo enquanto ele ocorre, ao vivo;
    no instante finíssimo em que ocorre,
    em ponta de agulha e porém acessível;
    viver seu tempo: para o que ir viver
    num deserto literal ou de alpendres;
    em ermos, que não distraiam de viver
    a agulha de um só instante, plenamente.
    Plenamente: vivendo-o de dentro dele;
    habitá-lo, na agulha de cada instante,
    em cada agulha instante: e habitar nele
    tudo o que habitar cede ao habitante.

    E de volta de ir habitar seu tempo:
    ele corre vazio, o tal tempo ao vivo;
    e como além de vazio, transparente,
    o instante a habitar passa invisível.

    Portanto: para não matá-lo, matá-lo;
    matar o tempo, enchendo-o de coisas;
    em vez do deserto, ir viver nas ruas
    onde o enchem e o matam as pessoas;
    pois como o tempo ocorre transparente
    e só ganha corpo e cor com seu miolo
    (o que não passou do que lhe passou),
    para habitá-lo: só no passado, morto.

    O corpo é onde
    é carne:

    o corpo é onde
    há carne
    e o sangue
    é alarme.

    O corpo é onde
    é chama:

    o corpo é onde
    há chama
    e a brasa
    inflama.

    O corpo é onde
    é luta:

    o corpo é onde
    há luta
    e o sangue
    exulta.

    O corpo é onde
    é cal:

    o corpo é onde
    há cal
    e a dor
    é sal.

    O corpo
    é onde
    e a vida
    é quando.

    O que fazer entre um orgasmo e outro,
    quando se abre um intervalo
    sem teu corpo?

    Onde estou, quando não estou
    no teu gozo incluído?
    Sou todo exílio?

    Que imperfeita forma de ser é essa
    quando de ti sou apartado?

    Que neutra forma toco
    quando não toco teus seios, coxas
    e não recolho o sopro da vida de tua boca?

    O que fazer entre um poema e outro
    olhando a cama, a folha fria?

    Em que língua se diz, em que nação,
    Em que outra humanidade se aprendeu
    A palavra que ordene a confusão
    Que neste remoinho se teceu?
    Que murmúrio de vento, que dourados
    Cantos de ave pousada em altos ramos
    Dirão, em som, as coisas que, calados,
    No silêncio dos olhos confessamos?

    José Saramago – em OS POEMAS POSSÍVEIS
    editorial CAMINHO/Lisboa,1985

    Certa palavra dorme na sombra
    de um livro raro.
    Como desencantá-la?
    É a senha da vida
    a senha do mundo.
    Vou procurá-la.

    Vou procurá-la a vida inteira
    no mundo todo.
    Se tarda o encontro, se não a encontro,
    não desanimo,
    procuro sempre.

    Procuro sempre, e minha procura
    ficará sendo
    minha palavra.

    Manoel de Barros

    Somos parte da natureza. E, do mesmo modo, somos parte das palavras também. Quantas vezes uma palavra interrompe a gente e aparece? Quantas vezes ela se impõe sem que possamos entender por quê? Uns pensam que é mediunidade, mas é a palavra que fala em nós. Para um poeta,
    a palavra que se impõe é mais forte que o sentido.

    Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
    manhãs e madrugadas em que não precisamos morrer.
    Então sabemos tudo do que foi e será.
    O mundo aparece explicado definitivamente e entra
    em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
    palavras que a significam.
    Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos.
    Com doçura.
    Aí se contém toda a verdade suportável :
    o contorno, a vontade e os limites.
    Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
    sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do mundo infatigável,
    porque mordeu a alma até aos ossos dela.
    Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
    como a água, a pedra e a raíz.
    Cada um de nós é por enquanto a vida.
    Isso nos baste.

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