Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.
Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.
Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.
Virei-me sobre a minha própria experiência, e contemplei-a.
Minha [...]
Posts de Fevereiro, 2008
Cecília Meireles – Noções
Publicado em cecília meireles, etiquetado cecília meireles, Noções em Fevereiro 16, 2008 | Deixar um comentário »
Cassiano Ricardo – Ladainha
Publicado em Cassiano Ricardo, etiquetado Cassiano Ricardo, Ladainha em Fevereiro 16, 2008 | Deixar um comentário »
Por que o raciocínio,
os músculos, os ossos?
A automação, ócio dourado.
O cérebro eletrônico, o músculo
mecânico
mais fáceis que um sorriso.
Por que o coração?
O de metal não tornará o homem
mais cordial,
dando-lhe um ritmo extra-
corporal?
Por que levantar o braço
para colher o fruto?
A máquina o fará por nós.
Por que labutar no campo, na cidade?
A máquina o fará por nós.
Por que [...]
Pablo Neruda – do filme “O carteiro e o poeta”
Publicado em Pablo Neruda, etiquetado O carteiro e o poeta, Pablo Neruda em Fevereiro 16, 2008 | 1 Comentário »
A poesia chegou me procurando.
Eu não sei, não sei de onde ela veio,
se de um inverno ou de um rio.
Eu não sei como nem quando.
Não, não eram vozes,
não eram palavras, nem silêncio;
mas de uma rua eu fui chamado abruptamente
dos ramos da noite, dos outros,
no meio de um tiroteio violento,
e num retorno solitário lá estava eu
sem [...]
Alcides Villaça – Ponteio
Publicado em Alcides Villaça, etiquetado Alcides Villaça, Ponteio em Fevereiro 16, 2008 | 1 Comentário »
Os olhos tocam primeiro,
mas as palavras por fim.
Mas as palavras repousam,
e os olhos devem seguir.
Os olhos sabem primeiro,
mas as palavras recolhem.
Mas as palavras não colhem
do campo o que os olhos colhem.
Os olhos querem o tempo,
mas as palavras já têm.
Mas nas palavras não cabe
dos olhos esse não caber.
Os olhos olham as palavras,
mas as palavras entoam.
Mas as [...]
Ferreira Gullar – Poemas Portugueses( 4 )
Publicado em Ferreira Gullar, etiquetado Ferreira Gullar, Poemas Portugueses em Fevereiro 16, 2008 | Deixar um comentário »
Nada vos oferto
além destas mortes
de que me alimento
Caminhos não há
Mas os pés na grama
os inventarão
Aqui se inicia
uma viagem clara
para a encantação
Fonte, flor em fogo,
quem é que nos espera
por detrás da noite ?
Nada vos sovino:
com a minha incerteza
vos ilumino
Ferreira Gullar – Perplexidades
Publicado em Ferreira Gullar, etiquetado Ferreira Gullar, Perplexidades em Fevereiro 16, 2008 | Deixar um comentário »
a parte mais efêmera
de mim
é esta consciência de que existo
e todo o existir consiste nisto
é estranho!
e mais estranho
ainda
me é sabê-lo
e saber
que esta consciência dura menos
que um fio de meu cabelo
e mais estranho ainda
que sabê-lo
é que
enquanto dura me é dado
o infinito universo constelado
de quatrilhões e quatrilhões de estrelas
sendo [...]
Paulo Leminski – Poemas da série Caprichos e Relaxos
Publicado em Paulo Leminski, etiquetado Caprichos e Relaxos, Paulo Leminski em Fevereiro 16, 2008 | Deixar um comentário »
uma carta uma brasa através
por dentro do texto
nuvem cheia da minha chuva
cruza o deserto por mim
a montanha caminha
o mar entre os dois
uma sílaba um soluço
um sim um não um ai
sinais dizendo nós
quando não estamos mais
*
um deus também é o vento
só se vê nos seus efeitos
árvores em pânico
bandeiras
água trêmula
navios a zarpar
me ensina
a sofrer sem ser visto
a [...]
Dilson Lages Monteiro – (RE)PRESA
Publicado em dilson lages monteiro, etiquetado (RE)PRESA, dilson lages monteiro em Fevereiro 16, 2008 | Deixar um comentário »
A água debaixo da ponte
agita-se com o reflexo do céu
e devora a noite
tecendo o rio de estrelas.
Debaixo da ponte
os lábios das margens
molham-se de delírios
e os lírios olham a imensidão.
Debaixo da ponte
o corpo da água escorre
entre os dedos de concreto
e esbarra no beijo da vegetação.
Ferreira Gullar – Narciso e Narciso
Publicado em Ferreira Gullar, etiquetado Ferreira Gullar, Narciso e Narciso em Fevereiro 16, 2008 | Deixar um comentário »
Se Narciso se encontra com Narciso
e um deles finge
que ao outro admira
(para sentir-se admirado),
o outro
pela mesma razão finge também
e ambos acreditam na mentira.
Para Narciso
o olhar do outro, a voz
do outro, o corpo
é sempre o espelho
em que ele a própria imagem mira.
E se o outro é
como ele
outro Narciso,
é espelho contra espelho:
o olhar que mira
reflete o que [...]