Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.
Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.
Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.
Arquivo da categoria ‘carlos drummond de andrade’
Drummond – A palavra mágica
Publicado em carlos drummond de andrade, etiquetado palavra mágica em Novembro 28, 2008 | Deixar um comentário »
Carlos Drummond de Andrade – Acordar, Viver
Publicado em carlos drummond de andrade, etiquetado Acordar, drummond, viver em Novembro 19, 2008 | Deixar um comentário »
Acordar, Viver
Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.
Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?
Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais [...]
Carlos Drummond de Andrade – Os últimos dias
Publicado em carlos drummond de andrade, etiquetado carlos drummond de andrade, Os últimos dias em Fevereiro 12, 2008 | Deixar um comentário »
Que a terra há de comer,
Mas não coma já.
Ainda se mova,
para o ofício e a posse.
E veja alguns sítios
antigos, outros inéditos.
Sinta frio, calor, cansaço:
para um momento; continue.
Descubra em seu movimento
forças não sabidas, contatos.
O prazer de estender-se; o de
enrolar-se, ficar inerte.
Prazer de balanço, prazer de vôo.
Prazer de ouvir música;
sobre o papel deixar que a mão deslize.
Irredutível [...]
Carlos Drummond de Andrade – Os Ombros Suportam o Mundo
Publicado em carlos drummond de andrade, etiquetado carlos drummond de andrade, Os Ombros Suportam o Mundo em Fevereiro 9, 2008 | Deixar um comentário »
Chega um tempo em que não se diz mais: meu
Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos [...]
Carlos Drummond de Andrade – O Lutador
Publicado em carlos drummond de andrade, etiquetado drummond, o lutador em Fevereiro 9, 2008 | 1 Comentário »
Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem 3 há sevícia
que as traga de novo
ao centro da [...]
Carlos Drummond de Andrade – O Homem; As Viagens
Publicado em carlos drummond de andrade, etiquetado drummond, O Homem As Viagens em Fevereiro 9, 2008 | Deixar um comentário »
O homem, bicho da terra tão pequeno
Chateia-se na terra
Lugar de muita miséria e pouca diversão,
Faz um foguete, uma cápsula, um módulo
Toca para a lua
Desce cauteloso na lua
Pisa na lua
Planta bandeirola na lua
Experimenta a lua
Coloniza a lua
Civiliza a lua
Humaniza a lua.
Lua humanizada: tão igual à terra.
O homem chateia-se na lua.
Vamos para marte — ordena a suas [...]
Carlos Drummond de Andrade – Estrambote Melancólico
Publicado em carlos drummond de andrade, etiquetado drummond, Estrambote Melancólico em Fevereiro 9, 2008 | Deixar um comentário »
Tenho saudade de mim mesmo,
saudade sob aparência de remorso,
de tanto que não fui, a sós, a esmo,
e de minha alta ausência em meu redor.
Tenho horror, tenho pena de mim mesmo
e tenho muitos outros sentimentos
violentos. Mas se esquivam no inventário,
e meu amor é triste como é vário,
e sendo vário é um só. Tenho carinho
por toda perda [...]
Carlos Drummond de Andrade – Verbo ser
Publicado em carlos drummond de andrade, etiquetado berbo ser, drummond em Fevereiro 8, 2008 | Deixar um comentário »
Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor.
Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer?
Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
[...]
Carlos Drummond de Andrade – Mundo Grande
Publicado em carlos drummond de andrade, etiquetado carlos drummond de andrade, mundo grande em Fevereiro 8, 2008 | 1 Comentário »
Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.
Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão [...]