Feeds:
Posts
Comentários

Não criamos as palavras.
o Verbo é que, em nós,
se fez palavra.

A palavra humana
deriva do Verbo divino
e toca o silêncio das coisas,
mudas porque disseram tudo.

E, porque disseram tudo
são perfeitas
no seu recorte definido.

A voz
só existe nos seres indefinidos
ou que têm ainda que dizer.

Mas a palavra
entra no silêncio das coisas
e torna-se mais profunda.

Participa do Silêncio, que a gravida,
e do Verbo, que a ilumina.

(Teixeira de Pascoaes, O Grito que Deus Ouve)

Acordar, Viver

Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.

Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?

Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?

Ninguém responde, a vida é pétrea.

[Carlos Drummond de Andrade]

Manoel de Barros

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.

Manoel de Barros

Sou um sujeito cheio de recantos.
Os desvãos me constam.
Tem hora leio avencas.
Tem hora, Proust.
Ouço aves e beethovens.
Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin.

O dia vai morrer aberto em mim.

quando chove,
eu chovo,
faz sol,
eu faço,
de noite,
anoiteço,
tem deus,
eu rezo,
não tem,
esqueço,
chove de novo,
de novo,
chovo,
assobio no vento,
daqui me vejo,
lá vou eu,
gesto no movimento

Epitáfio para o corpo

Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito,
são suas obras completas.
[Paulo Leminski]

Testamento

Pouco importam
todos os versos que escrevi.
Importam as estrofes grudadas na língua
e as rimas que ficaram na carne.
Importa o que eu não disse
e  me deixou
essa mudez interna.

Importam todas as palavras
sopradas sem fôlego.
E todas as efêmeras palavras
e as paixões que calei
importam.

Todas as vezes
em que engoli as lágrimas
e silenciei os gritos
importam.

Comigo levarei
os ecos de todos
os meus silêncios.

Solange Firmino

* 1º lugar no “2º concurso de literatura  Cidade de Gravatal 2007″.

em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós

Feito mistério

Então
senti que o resumo
é de cada um
que todo rumo
deságua em lugar comum
então eu monto num cavalo
que me leva a Teerã
e não me perco jamais
quando desespero vejo muito mais
Essa canção me rói, feito um mistério
essa tristeza dói
meu fingimento é sério
como aéreo é sempre todo amor

Cacaso – Happy end

Happy end

O meu amor e eu
nascemos um para o outro
agora só falta quem nos apresente

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar a saída,
em vez de abrir um compasso,
projeto-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
— saudosa do que não faço,
— do que faço, arrependida.

« Novos Posts - Postagens Antigas »