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Archive for the ‘Affonso Romano de Sant’Anna’ Category

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Eu na Acrópole em Atenas.

Deixei a Acrópole, em Atenas,
como a encontrei.
Pisei suas pedras
olhei as sobrantes figuras derruídas
e agora parto para meu distante país.
Não o fizeram assim os persas,
os turcos,
e aquele inglês avaro
que levou seus mármores.

No topo da montanha, a Acrópole resiste.

No café da manhã, a olhava.
No entardecer, a olhava.
À noite, iluminada, a olhava.

Certa madrugada levantei-me
para (há quatro mil anos)
contemplá-la.

Eu
— exposto a pilhagens e desmontes,
admirei sua permanência.

Um dia estarei morto.
Ela sobreviverá aos bárbaros
e aos que, como eu,
depositaram
aqui
o seu pasmo.

Affonso Romano de Sant’Anna

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o-DEATH-TUNNEL-facebook.jpg   
Amigos, nada mudou 
        em essência. 
        Os salários mal dão para os gastos, 
        as guerras não terminaram 

        e há vírus novos e terríveis, 
        embora o avanço da medicina. 
        Volta e meia um vizinho 
        tomba morto por questão de amor. 
        Há filmes interessantes, é verdade, 
        e como sempre, mulheres portentosas 
        nos seduzem com suas bocas e pernas, 
        mas em matéria de amor 
        não inventamos nenhuma posição nova. 
        Alguns cosmonautas ficam no espaço 
        seis meses ou mais, testando a engrenagem 
        e a solidão. 
        Em cada olimpíada há récordes previstos 
        e nos países, avanços e recuos sociais. 
        Mas nenhum pássaro mudou seu canto 
        com a modernidade. 

        Reencenamos as mesmas tragédias gregas, 
        relemos o Quixote, e a primavera 
        chega pontualmente cada ano. 

        Alguns hábitos, rios e florestas 
        se perderam. 
        Ninguém mais coloca cadeiras na calçada 
        ou toma a fresca da tarde, 
        mas temos máquinas velocíssimas 
        que nos dispensam de pensar. 

        Sobre o desaparecimento dos dinossauros 
        e a formação das galáxias 
        não avançamos nada. 
        Roupas vão e voltam com as modas. 
        Governos fortes caem, outros se levantam, 
        países se dividem 
        e as formigas e abelhas continuam 
        fiéis ao seu trabalho. 

 
        Nada mudou em essência. 

        Cantamos parabéns nas festas, 
        discutimos futebol na esquina 
        morremos em estúpidos desastres 
        e volta e meia 
        um de nós olha o céu quando estrelado 
        com o mesmo pasmo das cavernas. 
        E cada geração , insolente, 
        continua a achar 
        que vive no ápice da história.

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20160331_233341

O corpo é onde
é carne:

o corpo é onde
há carne
e o sangue
é alarme.

O corpo é onde
é chama:

o corpo é onde
há chama
e a brasa
inflama.

O corpo é onde
é luta:

o corpo é onde
há luta
e o sangue
exulta.

O corpo é onde
é cal:

o corpo é onde
há cal
e a dor
é sal.

O corpo
é onde
e a vida
é quando.

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20160331_233341

O que fazer entre um orgasmo e outro,
quando se abre um intervalo
sem teu corpo?

Onde estou, quando não estou
no teu gozo incluído?
Sou todo exílio?

Que imperfeita forma de ser é essa
quando de ti sou apartado?

Que neutra forma toco
quando não toco teus seios, coxas
e não recolho o sopro da vida de tua boca?

O que fazer entre um poema e outro
olhando a cama, a folha fria?

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