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Archive for the ‘Ferreira Gullar’ Category

Ferreira Gullar

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o-DEATH-TUNNEL-facebook.jpgOnde começo, onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?

Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.

Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo, a chamar-me.

Extraviei-me no tempo.
Onde estarão meus pedaços?
Muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.

Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.

Ah, ser somente o presente:
esta manhã, esta sala.

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[Eu e Ferreira Gullar em 24/11/2010, premiação do Projeto Poesia na Escola, Rio – uma cidade de leitores]

Ferreira Gullar – Narciso e Narciso

Se Narciso se encontra com Narciso
e um deles finge
que ao outro admira
(para sentir-se admirado),
o outro
pela mesma razão finge também
e ambos acreditam na mentira.

Para Narciso
o olhar do outro, a voz
do outro, o corpo
é sempre o espelho
em que ele a própria imagem mira.
E se o outro é
como ele
outro Narciso,
é espelho contra espelho:
o olhar que mira
reflete o que o admira
num jogo multiplicado em que a mentira
de Narciso a Narciso
inventa o paraíso.
E se amam mentindo
no fingimento que é necessidade
e assim
mais verdadeiro que a verdade.

Mas exige, o amor fingido,
ser sincero
o amor que como ele
é fingimento.
E fingem mais
os dois
com o mesmo esmero
com mais e mais cuidado
– e a mentira se torna desespero.
Assim amam-se agora
se odiando.

O espelho
embaciado,
já Narciso em Narciso não se mira:
se torturam
se ferem
não se largam
que o inferno de Narciso
é ver que o admiravam de mentira.

                                                       

* Do livro: Barulhos.

OVNI

Sou uma coisa entre coisas
O espelho me reflete
Eu (meus
olhos)
reflito o espelho

Se me afasto um passo
o espelho me esquece:
— reflete a parede
a janela aberta.

Eu guardo o espelho
o espelho não me guarda
(eu guardo o espelho
a janela a parede
rosa
eu guardo a mim mesmo
refletido nele):
sou possivelmente
uma coisa onde o tempo
deu defeito

Narcisista

“[Narciso] deitou-se tentando matar a sede,
outra mais forte achou. Enquanto bebia,
viu-se na água e ficou embevecido com a própria imagem. (Ovídio, “Metamorfoses”)
Como aprender a me ver
sem me perder?
O reflexo não me explica,
apenas me consome
e me prende.Uno-me tanto a mim
que meus átomos se juntam
ao meu reflexo.
Como Narciso,
eu sou aquele
no reverso, no inverso,
no espectro que me  devora.Quando me perco,
é quando me encontro.
Solange Firmino
[9º lugar no concurso Brasil dos Reis 2011]
Texto ‘Narciso e sua imagem’, na minha coluna Mito em Contexto em Blocos online: http://www.blocosonline.com.br/literatura/prosa/colunistas/sfirmino/sf0023.php

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Nada vos oferto
além destas mortes
de que me alimento

20160422_111811.jpg

Caminhos não há
Mas os pés na grama
os inventarão

Aqui se inicia
uma viagem clara
para a encantação

Fonte, flor em fogo,
quem é que nos espera
por detrás da noite ?

Nada vos sovino:
com a minha incerteza
vos ilumino

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20160422_111811a parte mais efêmera

                    de mim

é esta consciência de que existo

e todo o existir consiste nisto

é estranho!

e mais estranho

                    ainda

        me é sabê-lo

e saber 

que esta consciência dura menos

que um fio de meu cabelo

e mais estranho ainda

                    que sabê-lo

é que

                         enquanto dura me é dado

        o infinito universo constelado

        de quatrilhões e quatrilhões de estrelas

sendo que umas poucas delas

posso vê-las

                    fulgindo no presente do passado

 

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